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Hotel Califórnia, Holy Hell e a Busca pela Alma

March 12, 2017

 

Esses dias assisti a um filme chamado ‘Holy Hell’ – sobre a história de um membro de um grupo espiritual que surgiu na Califórnia nos anos 80 e permaneceu ativo por mais de 25 anos. Para quem se interessa por assuntos de Mestres, grupos, buscas espirituais e tal, é um prato cheio para reflexões... E me fez retomar algumas.

 

Quando minha filha entrou na escola ela estava com quase três anos. Desde esta época eu costumo buscá-la na saída e me lembro de uma conversa nossa nesse início de vida escolar. Eu a perguntei: “Como foi a aula hoje meu amor”? Ela respondeu: “Foi bem.” Eu: “E de qual aula você gostou mais?” Ela: “Ah...Dá aula DIVERSIFICATIVA!”

 

E nessa época ela só tinha três anos! É isso. O espírito humano gosta de ser livre e experimentar variados estímulos. A aula diversificativa da escola oferecia um mundo de opções e liberdade, contribuindo assim para o início da formação da autonomia – aquela sensação de andar de espinha ereta pela vida, movidos a partir do motor (ou do tambor) que pulsa em nosso próprio peito. A diversidade de opiniões faz com que existam também diferentes grupos e, claro, o ‘grupo’ dos que não gostam de grupos.

 

Eu confesso que me identifico com quem gosta dos grupos e também com o outro tipo de ‘grupo’. Como disse o psicanalista Contardo Calligaris: “Sou individualista e não gosto de torcida organizada, quando vejo três pessoas com a mesma camiseta já fico incomodado...” Ainda assim, ver pessoas unidas em nome de uma causa nobre me sensibiliza e atrai. Uma causa do tipo ‘elevar o ser humano ao desenvolvimento de seu mais alto potencial’... Hmm ... Isso sempre me fisgou.

 

‘Então a vida pode ser muito mais do que acordar, ir ao banheiro, vestir-se, tomar café, trabalhar, experimentar sentimentos, almoçar, trabalhar mais e no final do dia sentir um cansaço intercalado com certos momentos de excitação, algumas risadas e algum amor talvez...?’ Sim. A vida pode ser mais do que isso.

 

Iyengar diz em seu livro “Luz na Vida” (summus editorial – 2007): “A condição humana imperfeita não é motivo para se lamentar. Esta imperfeição nos dá uma oportunidade única: a oportunidade de Evoluir.” Creio que Evolução é transformar este tipo de vida em algo de mais significado e qualidade. É transformação pessoal também. Não é só transformação das atividades da vida de fora. Mas... Pensar sobre tudo isso é um pouco cansativo...

 

Enquanto meu masala chai na mesa me olha atraente, convidando-me a apenas saboreá-lo e relaxar um pouco, sem me importar se vou seguir um mestre 'com m minúsculo ou com M Maiúsculo' (ou se não vou seguir nenhum). ainda assim busco palavras para decodificar o que se passa em mim! Existe a possibilidade de não pensar mais sobre isso e tratar de viver de forma mais simples, de acordo com princípios éticos e empenhar-me em ser apenas uma buena persona... (apesar de já ter ouvido uma advertência severa de um mestre de que ser apenas uma buena persona não é suficiente para de verdade contribuir para a melhora do mundo e que isso irá levar-me, mais cedo ou mais tarde, a formar pactos com o mundo escuro).

 

Pode ser.. Minha opção em manter-me num certo estado de abertura, receptividade e sentir-me, de verdade, uma aprendiz, faz com que normalmente eu não rejeite e nem aceite de cara certas coisas que outras pessoas acatariam ou rejeitariam prontamente.

 

Comunidades, grupos espirituais etc.: gosto muito destes locais e já conheci alguns pelo mundo. O que eu observo é que, ao mesmo tempo em que estas organizações acenam com a grande oportunidade de encontrarmos nossa alma, também acenam, de forma oculta, com a grande possibilidade de perdê-la. Há o risco de se confundir os trabalhos, querer eliminar o Ego antes mesmo de chegar a tê-lo, perder a individualidade, deixar de questionar para não ficar “no mental” e então tornar-se facilmente manipulável, reprimir a sombra e colocar a máscara de pessoa sempre totalmente feliz, servil, o perfeito aprendiz que no fundo quer a aprovação do Mestre como queria a do pai e da mãe...

 

Enfim, é preciso estar atento, conversar com pessoas de fora do grupo, sentir o mundo em geral. Ouvir feedbacks de pessoas de mundos diferentes... O mundo comum das ‘buenas personas’ é mesmo tão inferior assim às escolas iniciáticas...? Cuidado se o grupo se acha o melhor e superior à todos os outros grupos e pessoas do mundo.

 

Penso nisso quando ouço Hotel California dos Eagles: “This could be heaven or this could be hell...” Existe todo um aspecto sedutor de encontrar um grupo onde as pessoas parecem ter acesso à outro mundo, muito mais interessante do que o mundo óbvio dos seres humanos medíocres. Isto aparece nesta bela música, onde é fácil entrar e muito difícil, ou impossível, de sair.

 

Bem-vindo ao Hotel Califórnia,

Um lugar tão encantador...,

um rosto tão encantador.

 

Eles estão desfrutando a vida

no Hotel Califórnia,

Que surpresa agradável,

traga seus álibis

 

Espelhos no teto,

o champanhe rosa no gelo...

E ela disse:

"Nós todos somos apenas prisioneiros aqui

Do nosso próprio ardil".

 

E nas salas dos mestres,

Eles reuniam-se para o banquete.

Eles apunhalam com suas facas de aço,

Mas simplesmente não conseguem matar a besta.

 

A última coisa que me lembro, eu estava

Fugindo para a porta...

Eu tinha de encontrar a passagem de volta

Ao lugar onde estava antes.

 

"Relaxe", disse o homem da noite,

 

"Nós estamos programados para receber:

Você pode fazer o check-out a qualquer hora que quiser,

Mas você não pode nunca ir embora."

 

(Eagles – Hotel California)

 

Vamos manter os pés no chão enquanto buscamos o céu, a luz, a alma.

Praticar Yoga é bastante seguro nesse aspecto: (em geral...) ninguém quer fazer sua cabeça; é você e seu corpo, as suas experiências, observações e conclusões.

 

A inteligência das técnicas de Yoga que agem em seu organismo lhe dão acesso, pouco a pouco, às revelações dos mundos espirituais. E o resto, é com o seu discernimento, bom-senso, um pitada de malícia e sua sinceridade nessa incessante e autêntica busca pela Verdade.

 

Com todo respeito aos Mestres, Gurus e professores dos caminhos espirituais, todos sabemos que que ter milhares de seguidores não terá valor nenhum se estes são como uma manada inconsciente e insegura de suas próprias formas de conexão com a Luz. Mestre Yogananda dizia: 'Prefiro uma alma viva me ouvindo a milhares de personalidades... ' 

 

Seja você um ávido buscador apaixonado pela causa espiritual ou um novato curioso por estes assuntos, lembre-se que sempre estiveram e continuarão a estar dentro de você. Os mestres devem ajudar você a achar a chave perdida em suas bagunças interiores, lhe dar a coragem para virá-la e a força para receber o vento e a luz que virá com essa abertura. Se não for assim, melhor pensar 3 vezes antes de seguir seus ensinos... Avanti!

 

Aho!

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