A TAL FELICIDADE

Mergulho na Impermanência

Texto publicado na revista Veja São Paulo


Sinto-me como um peixe que nada nas águas da felicidade; a felicidade me envolve e é o que inspiro e o que devolvo para o Universo. É tão parte da minha vida que somos uma. Não falo de uma felicidade vista como um tesouro a ser conquistado, escalar um Monte Everest da alegria, mas uma felicidade que está aqui, disponível. Mesmo nesse momento tão único, imprevisível e de tanto balanço, numa quarentena mundial que ninguém sabe bem quando vai terminar? Sim. Para todo mundo? Sim. Você tem tudo que precisa para criar um estilo de vida conectado com a felicidade. A felicidade não é um momento ou outro de alegria, muito me- nos de euforia! É um estado de espírito. No ioga, isso se chama santosha e significa contentamento, um sentimento de satisfação relativamente independente das circunstâncias externas.

Absorvo esse ensinamento como uma mensagem que me diz que, mesmo triste, posso estar contente. A felicidade é uma música tocando no fundo do meu coração, um perfume, algo divino. Se estou triste ou contente, não importa tanto. Tudo é impermanente.

Para isso, considero fundamental termos um amparo espiritual. Essa conexão nos traz uma espécie de proteção, não um amortecedor que anestesia e nos torna insensíveis, mas um airbag que ajuda a passar pelos balanços da vida sem partir ao meio. E estamos tendo balanços fortes. Quem sabe, balanços que vêm mostrar o que está equivocado e o que precisa ser transformado.


Como disse o Papa Francisco recentemente diante de uma vazia Piazza San Pietro: “Acreditávamos que poderíamos ser saudáveis num mundo profundamente doente...”. Talvez nossa felicidade não estava onde acreditávamos e perceber isso é evolutivo e curativo, ainda que doloroso e difícil. Há uma presença específica que assombra o processo de transformação. E essa presença é a morte. Para mim, é uma palavra revestida de dor, difícil até de escrever.

Esse medo de morrer pode estar muito relacionado ao medo de ir embora dessa Terra sem ter cumprido nosso papel e feito o que tínhamos para fazer. Como uma lembrança longínqua, a alma tem uma memória sobre os acordos que fez fez antes de adentrar nesse mundo e não quer, de modo algum, retornar ao plano espiritual sem ter exercido aqui seus melhores talentos, sem ter expressado o que o coração sentiu, sem ter amado com toda sua capacidade...

Como isso chega em você? Será que você tem uma entrega que ainda não se completou? O que sente que sua alma veio realizar aqui? Se estamos ainda aqui e estamos vivos, ainda é tempo de fazermos os ajustes necessários e cumprirmos nosso papel.

Para acessar essa conexão com a alma é importante dedicar tempo ao recolhimento, cultivar a calma e o aquietamento. Esses elementos são a antessala de uma nova forma de se conectar com você mesmo, com os outros, com a vida e, claro, com a felicidade. Quem sabe, possamos fazer desse momento o nascimento de uma nova sociedade, um novo mundo, uma nova era. Que o melhor da vida nos abençoe, dando-nos força e saúde para atravessar o caos e chegarmos num lugar melhor dentro e fora de nós.


Lilly Hastings é psicóloga, professora de ioga e facilitadora de experiências para a transformação do corpo e da consciência. De segunda a sexta, às 12h, e aos domingos, às 12h30, conduz lives no seu perfil @lilly. hastings como parte do projeto #consciencianaquarentena.

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